XIV Escola de Verão
A Grande Folia da Química Farmacêutica Medicinal
Por Lúcia Beatriz Torres

Dizem que, no Brasil, o ano novo só começa depois do carnaval. Como esse ano a folia chegou mais cedo, a XIV Escola de Verão em Química Farmacêutica Medicinal acabou fazendo, com criatividade e inovação, a “abertura oficial de 2008”, na semana que sucedeu ao carnaval. Na programação, além dos tradicionais cursos e conferências, foram incluídos um Workshop de Química Bioinorgânica e um Tutorial de Modelagem Molecular. O Pré-lançamento da segunda edição de um famoso livro de Química Medicinal também foi uma das surpresas do evento.

Organizada há quatorze anos, sempre no período das férias acadêmicas como forma de ocupar o espaço universitário ocioso, pelo Laboratório de Avaliação e Síntese de Substâncias Bioativas (LASSBio), de 11 a 15 de fevereiro a Escola de Verão reuniu 250 participantes de instituições de diversas partes do país,  no Centro de Ciências da Saúde (CCS), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foram cinco dias de uma intensa jornada científica, onde os alunos puderam ampliar os seus horizontes na Química Farmacêutica Medicinal, com renomados especialistas brasileiros e estrangeiros.

A Escola de Verão existe para poder contribuir para a formação continuada de estudantes, tanto de graduação quanto pós-graduação, e profissionais nos diferentes aspectos da Química Farmacêutica Medicinal” – explicou o Prof. Eliezer J. Barreiro, coordenador do evento, revelando ainda que a disciplina, nos últimos anos, passou a ser bastante cobiçada. “Esse fato mostra que a questão de fármacos e medicamentos está avançando em nosso país, e isso é muito bom”, ressaltou.

Multidisciplinariedade na Escola de Verão

A descoberta e o planejamento de novos fármacos, assim como o estudo da relação entre a estrutura química e a atividade farmacológica de fármacos e medicamentos estão entre os principais objetivos da Escola de Verão em Química Farmacêutica Medicinal. Para melhor ilustrar esses conteúdos, a perfeita interação entre a Química, Farmacologia e a Biologia - seja na Bioinformática, Bioinorgânica ou em outras disciplinas correlacionadas - já se tornou uma característica marcante da Escola.

A composição da mesa de abertura já simboliza a multi e a interdisciplinariedade do evento” – destacou Barreiro.
Na cerimônia que inaugurou a XIV Escola de Verão estiveram presentes representantes de diversas instâncias da UFRJ e do Instituto do Milênio - Inovação e Desenvolvimento de Fármacos e Medicamentos (IM-INOFAR): Almir Fraga Valadares - Decano do CCS; Cássia Curan Turci - Diretora do Instituto de Química; Carlos Roland Kaiser - Coordenador da Pós-graduação em Química Orgânica; Roberto Takashi Sudo - Coordenador de Farmacologia e Vítor Francisco Ferreira, representante do IM-INOFAR.

“Fiquei muito satisfeita ao ver a multidisciplinaridade da Escola de Verão, com cursos relacionados a várias áreas contempladas pela Química Farmacêutica Medicinal. É uma grande honra para mim poder estar contribuindo.”, declarou a Profa. Letícia Veras Costa Lotufo, que veio da Universidade Federal do Ceará (UFC) para uma dupla função no evento: dar um curso e proferir uma conferência.

Maratona do Conhecimento

A 14ª. edição da Escola de Verão teve o seu formato adaptado para atender às sugestões feitas pelos participantes da última Escola. Além dos cursos clássicos, como “Introdução à Química Farmacêutica Medicinal”, do Prof. Eliezer J. Barreiro (UFRJ); Metabolismo e Toxicidade de Fármacos”, da Profa. Lídia Moreira Lima (UFRJ) e “Highlights in Medicinal Chemistry” -este ano ministrado pelo professor romeno Tudor I.Oprea (University of New México/EUA), especialista na Bioinformática para descoberta de novos fármacos e medicamentos - o evento teve ainda outras novidades.

Highlights in Medicinal Chemistry”
ministrado pelo professor romeno Tudor I.Oprea (University of New México/EUA)

Enfatizando o caráter híbrido da Escola, o Prof. Carlos Alberto Manssour Fraga (UFRJ) apresentou o curso “Aspectos da interdisciplinariedade em Química Farmacêutica Medicinal”. Já as Profas. Letícia Lotufo (UFC) e Maria das Graças Henriques (Farmanguinhos/Fiocruz) trouxe o tema dos “Bioensaios celulares: princípios ativos e aplicações” para a sala de aula. Em um momento em que a pesquisa em animais está sendo muito questionada, esse curso assumiu uma relevância ainda maior dentro da Escola de Verão em Química Farmacêutica Medicinal.

“Atualmente os bioensaios celulares surgem como uma ferramenta eficiente para reduzir o número de animais em experimentação. Acho muito importante que os alunos tenham essa visão, de que trabalhar com a célula isolada pode ser uma alternativa” -  chamou a atenção a Profa. Letícia Lotufo, ressaltando, entretanto, que os bioensaios celulares não podem substituir os teste in vivo, que devem ser feitos, com critérios, a posteriori.

Cursos específicos e de curta duração. Esta foi a grande inovação da XIV Escola de Verão. O Workshop “Química Bioinorgânica Medicinal” foi ministrado pelo Prof. Nicholas Farell (Virginia Commonwealth University/USA) e pela Profa. Heloísa Beraldo (Instituto de Química/UFMG).
A Bioquímica Inorgânica se interessa por planejar fármacos que contenha um metal, os “metalofármacos” ou que você tenha como alvo uma metaloenzima”, explicou a professora mineira.

O Tutorial em “Química Computacional e Modelagem Molecular” foi apresentado Profa. Nelilma Correia Romeiro (UFRJ) e conseguiu, através de exercícios nas plataformas de software, transmitir para os alunos uma visão prática do que é a modelagem molecular.
O tutorial é importante para os alunos terem uma boa noção de que forma a modelagem molecular pode os ajudar nos laboratórios de Química Farmacêutica Medicinal”, ressaltou a Profa. Nelilma, que junto com a Profa. Aline Guerra Manssour Fraga (UFRJ) ministrou um “mini-tutorial” dentro do curso de Metabolismo e Toxicidade de Fármacos, detalhando o funcionamento de dois softwares para a predição de metabólitos.


Perfil dos Participantes

Ao todo foram 6 cursos, um workshop, 5 conferências “ao meio-dia” e o tão esperado pré-lançamento da 2ª. edição - atualizada, revisada e ampliada - do livro dos professores Eliezer J. Barreiro e Carlos Alberto Manssour Fraga, “Química Medicinal: as bases moleculares da ação dos fármacos”, reeditado pela editora Artmed.
Na estatística realizada pela Comissão Organizadora do evento foi computada a presença de representantes de 15 estados brasileiros na XIV Escola de Verão. Em número de participantes, as delegações mais representativas vieram de Florianópolis/SC e de Alfenas/ MG.


Vim para Escola de Verão ampliar os meus horizontes na Química Medicinal, na minha graduação vi pouco desta parte. Quero aprender a ter a visão farmacêutica para poder trabalhar com mais responsabilidade. Pois você não pode desmembrar os conhecimentos que tem, precisa buscar a fusão entre eles” -  revelou Meri Emili Ferreira Pinto (UFPB), que é formada em Química e recentemente entrou na Pós-graduação em Fitoquímica.

Esse ano, além da participação de um professor irlandês e de um romeno, proferindo cursos e conferências, tivemos ainda, na platéia, a presença do Panamá e de Gana. Icela Barberena Guerra realiza pesquisa de bioensaios em câncer e é professora de Química Farmacêutica Medicinal no Panamá; já Solomon Kweku Sagoe, de Gana, está no Brasil há dois anos cursando Farmácia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Uma futura farmacêutica grávida de 5 meses, uma das participantes mais assíduas do evento, voltará à Alfenas provida de uma intensa bagagem científica adquirida nesta Escola de Verão.
 
Profª Lídia Moreira e Profª Icela Barberena Guerra

A Indústria compareceu, não só como patrocinadora das Conferências, emprestando seu nome a elas - nesta 14ª. edição tivemos a Conferência Cristália e a Conferência SINC do Brasil – mas também no corpo discente da Escola de Verão.
Diretamente da Mantecorp veio o médico Daniel Gianella Neto e o farmacêutico Leonardo Mandalho Lima, a dupla paulista é responsável pela Gerência Executiva de Novos Negócios da empresa.
Daniel Gianella, Prof. Eliezer Barreiro Leonardo Mandalho  
Leonardo estava em busca de novas moléculas, já Dr. Gianella interessado em saber mais de uma área que tem pouco conhecimento: “Na medicina estudamos muito a terapêutica. Nesse evento eu vim conhecer a parte da Química Medicinal. Nós médicos não temos formação suficiente para esta disciplina”, declarou.        

Balanço de 14 anos da Escola de Verão

Nesses quatorze anos ininterruptos de realização da Escola de Verão, o evento atingiu a marca de mais de dois mil participantes. Em torno de 50 professores, de todo o país, já ministraram cursos na Escola, desde a sua criação. A freqüente participação dos pesquisadores internacionais só foi possível devido ao apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que há 10 anos, vem apoiando continuamente a Escola de Verão, que não conta com o apoio de nenhum outro órgão de financiamento federal (e.g. CAPES).   

Por aqui já passaram pesquisadores que descobriram medicamentos inovadores e contaram a história de suas descobertas “ao vivo e a cores”, e também pesquisadores que apresentaram a potencialidade de suas moléculas, candidatas a fármacos. Quem sabe a Escola de Verão dê sorte e tenhamos aqui contada a história de um novo agente anticâncer.” – idealizou o Prof. Eliezer J. Barreiro, inspirado na proposta feita por Roberto Debom, diretor de Negócios e Inovação da Cristália, à Prof. Letícia Lotufo (UFC), para apresentar o seu projeto de pesquisa na próxima reunião do Conselho Científico da empresa.
Em 2009, a Escola de Verão completará 15 anos. A Comissão Organizadora está ciente da importância desta marca e promete surpresas para esta edição em que o evento completará o seu Jubileu de Cristal. “Temos muitas idéias, mas para concretizá-las dependemos inteiramente do interesse das agências de fomento e também dos patrocinadores” – ressaltou Barreiro.