XIV Escola de Verão

Conferências “ao meio-dia”
O Prato Principal da XIV Escola de Verão
Por Lúcia Beatriz Torres

Conferências com renomados especialistas, nacionais e estrangeiros, dissertando sobre temas que representam um verdadeiro up-to-date da Química Farmacêutica Medicinal. Detalhe, sempre ao meio-dia. Mais uma vez a Escola de Verão manteve a sua tradição: o horário em que o sol atinge o seu ápice é o escolhido para servir o “prato principal”. Nesta XIV Escola de Verão os participantes puderam degustar o conhecimento trazido por “chefs” da Irlanda, Romênia e diferentes recantos do Brasil. E o melhor, quem pagou a conta foram os patrocinadores do evento.

A cada dia da semana, a Conferência levou o nome do seu “mecenas”. A Conferência Instituto do Milênio Inovação e Desenvolvimento de Fármacos e Medicamentos (IM-INOFAR) trouxe o Prof. romeno Tudor I. Oprea, vindo da Universitiy of New México/EUA, especialista em Bioinformática. A Conferência SINC do Brasil nos brindou com o farmacologista Mauro Martins Teixeira (UFMG). Já a Conferência Cristália patrocinou a vinda da Profa. Letícia Veras Lotufo (UFC), expert em bioprospecção de anticâncer no semi-árido nordestino. Prata da Casa, o Laboratório de Avaliação de Substâncias Bioativas (LASSBio) cedeu a Profa. Ana Luisa Palhares de Miranda, que falou sobre as N-acilidrazonas. Para encerrar o Ciclo de Conferências com “chave de ouro”, o Instituto Virtual de Fármacos (IVF) trouxe o Prof. irlandês Nicholas Farell (Virgínia Commonwealth University/EUA), especialista em Química Bioinorgânica Molecular.
 


Conferência IM-INOFAR

“Drug Discovery informatics: an introduction”

O Ciclo de Conferências da XIV Escola de Verão foi inaugurado com a palestra do Prof. Tudor I. Oprea, da Universitiy of New México School Of Medicine (EUA), que fez uma apresentação em que dissertou sobre a importância da Bioinformática na descoberta de novos fármacos, seus métodos e formas de atuação.
Segundo Oprea a Bioinformática é o campo da ciência em que a Biologia, a Computação Científica e as informações tecnológicas se unem em uma única disciplina. Através da Bioinformática é possível construir modelos que possam ser usados para prever se o protótipo tem as características essenciais para se tornar um fármaco.

O Prof. Tudor demonstrou como a Química Computacional (Cheminformatics) aplica métodos diversos de modelagem molecular para cálculo das propriedades de novos protótipos candidatos à fármacos. Propriedades essas que podem estar relacionadas com a afinidade, a habilidade e competência do protótipo se ligar na proteína alvo da patologia, e com a capacidade farmacocinética da molécula ser absorvida pelo organismo, ou seja, as suas características ADME – absorção, distribuição, metabolismo e excreção.

Técnicas emergentes de descobertas pré-clínicas, todas completamente automatizadas, como o High Throughput Synthesis e o High Throughput Screening foram apresentadas pelo professor romeno e causou impacto na platéia brasileira, que ficou impressionada com a “concorrência científica desleal”, visto que esta tecnologia ainda é um sonho distante em nosso país. “Pessoas são 100 vezes mais importantes que os equipamentos” - declarou Oprea, ao final de sua conferência, para tentar amenizar o “choque tecnológico” e levantar os ânimos dos pesquisadores nacionais.


Conferência SINC do Brasil

“Desenvolvimento de fármacos antiinflamatórios para o tratamento de doenças infecciosas”

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No segundo dia do Ciclo de Conferências, diretamente do Estado de Minas Gerais e com o patrocínio da SINC do Brasil – que é parceria da Escola de Verão, desde a sua primeira edição – o evento recebeu a presença do Prof. Mauro Martins Teixeira (UFMG), que apresentou uma
 
criativa palestra sobre o desenvolvimento de fármacos antiinflamatórios para o tratamento de doenças infecciosas.  Em suas metáforas científicas até a seleção brasileira de futebol, de 1970 e 2006, serviu de exemplo para ilustrar o processo inflamatório de uma célula.

O time da copa de 70 representou a inflamação bem sucedida, onde os jogadores,  leucócitos e neutrófilos interagiram perfeitamente uns com os outros, marcando um gol no adversário, ou seja, resgatando a homeostasia de tecido. Já na seleção de 2006, a inflamação fracassou. “A cooperação é essencial não só no futebol/processo inflamatório da célula, mas também em todos os aspectos da Ciência. Dá para evoluir muito quando você interage de forma positiva. Aproximar a Química da Farmacologia não é fácil. Mas essa união é importante para podermos ter uma visão completa do problema e juntos desenvolvermos o que nos interessa, que são as novas terapias, novos tratamentos” – ressaltou o farmacologista.

Em sua apresentação o Prof. Mauro Teixeira relacionou os fármacos antiinflamatórios disponíveis no mercado com as suas respectivas problemáticas. Chamou a atenção para o risco associado desta classe terapêutica com a imunodepressão e também com o dilema de se planejar fármacos que tenham ação no bloqueio dos neutrófilos. “Tem doenças infecciosas em que o neutrófilo tem uma função “boa”, como por exemplo, nas doenças bacterianas. Isso tem que ser avaliado, que tipo de fármaco é mais adequado para cada situação clínica”, observou.

 

Conferência Cristália

“Bioprospecção de substâncias com potencial anticâncer em plantas do semi-árido nordestino”

Floresta branca. É assim que a caatinga é chamada devido a sua aparência quando perde as folhas.
O semi-árido, ao contrário do que muitos pensam, é rico em biodiversidade, uma região com alto grau de endemismo de plantas e animais. Do Ceará, a Profa. Letícia Veras Costa Lotufo (UFC), trouxe para a Escola de Verão o potencial da prospecção em fontes naturais. “A Caatinga é árida, mas não é estéril. Tem uma série de moléculas com potencial anticâncer”, ressaltou a professora, logo no início da sua Conferência, em que apresentou um belo trabalho de levantamento da biodiversidade na caatinga, uma parceira com diversas universidades.

“Às vezes a natureza é mais criativa do que os químicos”, alfinetou a pesquisadora referindo-se à quiralidade das moléculas encontrada em nossas florestas, que geralmente precisam ser domesticadas em laboratório para diminuir a sua toxicidade e aumentar a sua eficácia. Essa criatividade dos centros quirais também pode auxiliar a driblar o perigo da resistência cruzada, iminente aos quimioterápicos.

“Desenvolver uma substância que não seja reconhecida por esse mecanismo de resistência pode representar, uma chance a mais, para aqueles que já perderam as esperanças na quimioterapia tradicional” – explicou a Profa. Letícia Lotufo, que  conseguiu, com a sua palestra, sensibilizar a Cristália Produtos Químicos e Farmacêuticos, a convidá-la para apresentar o seu trabalho na próxima reunião do Comitê Científico da empresa.


Conferência LASSBio

Propriedades farmacológicas de diferentes séries de N-acilidrazonas planejadas e sintetizadas como protótipos de fármacos antitrombóticos e antiinflamatórios”

Com a Conferência da Profa. Ana Luisa Palhares de Miranda (UFRJ), os participantes da XIV Escola de Verão puderam conhecer um pouco melhor o trabalho desenvolvido pela farmacologia do Laboratório de Avaliação de Substâncias Bioativas (LASSBio).
Sempre em busca de novos compostos protótipos canditados à fármacos,  o laboratório, desde a sua criação, em 1994, já descobriu em torno de 1.500 moléculas, sendo as N-acilidrazonas a sua grande maioria. O LASSBio 294, um dos compostos mais promissores desenvolvidos, e os seus análogos, o LASSBio 785 ao 789, possuem esta função química que teve a sua gênese descoberta pela observação de compostos com propriedades antiinflamatórias.

“O LASSBio 294 é a primeira patente internacional do laboratório. Em seus análogos fomos modificando a função N-acilidrazona para otimizar e obter mais informações sobre a relação estrutura-atividade”, explicou a pesquisadora, que considera um verdadeiro “quebra-cabeças” descobrir o mecanismo de ação desta série congênere.

Segundo ela, às vezes, você modifica o que está pendurado na N-acilidrazona e a atividade caminha para patologias diferentes. O mecanismo não é único, em cada sistema ele vai ter um efeito específico derivado daquela molécula. “É um caminho com várias direções, um quebra-cabeças que por mais “peças” tenha, mais séries de moléculas N-acilidrazona, a gente não consegue acabar de montar, tem sempre uma surpresa. Mas isso é bom, estimula a reflexão para tentar encaixar” - desabafou.


Conferência Instituto Virtual de Fármacos (IVF)

Development Strategies for novel platinum anti-cancer drugs

Para encerrar o Ciclo de Conferências “ao meio-dia” da Escola de Verão, o Instituto Virtual de Fármacos (IVF) trouxe o professor irlandês, Nicholas Farell, do Instituto de Química, da Virginia Commonweath University/EUA.
Cortês, o pesquisador que já morou 7 anos no Brasil -  na ocasião em que fez um intercâmbio científico na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) -  proferiu uma excelente palestra, em português, sobre as diferentes estratégias para se planejar novos protótipos de  “metalofármacos” anticâncer.

Especialista em Química Bioinorgânica Medicinal, Prof. Farell mostrou algumas  teorias interessantes para desenvolver fármacos a base de metais. Um exemplo que chamou a atenção da platéia foi o de tirar o cloro como ligante da platina e substituí-lo pela amina, o que veio a modificar de forma muito drástica o tipo de interação com o DNA.

Alterar as ligações com o DNA pode afetar as respostas celulares como o reconhecimento de proteínas e o ciclo de controle da célula. Essa teoria provê um embasamento para o desenvolvimento racional de novas terapias de fármacos platinados. Os “metalofármacos” podem ser uma alternativa real para desenvolver novos compostos anticâncer. Uma doença que é a segunda causa de morte no mundo e que a cura somente é encontrada em 30% dos casos.